A mulher do atirador de facas
Primeira faca
Uma moça, bela
em seu colam colorido, maquiagem carregada e um coração abatido. Ele, de fortes
traços latinos, trazia nas mãos um baú de madeira com uma pintura desgastada.
Os dois caminhavam em silencio
Segunda faca
Pedro olha com
seriedade para seu instrumento de trabalho, fecha um olho, concentra-se e atira
a primeira faca em sua assistente, que agora é apenas um alvo a não ser
acertado.
Ana não sabia o
que o marido pensava enquanto atirava a faca, talvez não pensasse em nada, a
concentração afinal deveria ser isso: não concentrar-se em nada.
Mas ele tinha
coisas em mente, ao contrario do que imaginava a assistente entediada.
Pedro trazia
consigo milhares de pensamentos na cabeça, talvez por isso Ana não soubesse
distinguir bem o que ele pensava. Pedro pouco falava.
Terceira faca
A caixa que
carregava era de uma espécie de madeira bem polida, já gasta pelo tempo e pelas
andanças neste mundo afora.
Ana cuidava bem
dos instrumentos do marido, o trailer em que moravam tinha uma mobília parecida
com a pintura da caixa.
Ana quase nunca
falava sobre o trabalho, afinal não se tinha muito que falar. Mas pensava.
Pensava que em alguns anos o colam de assistente já não lhe serviria.
Quarta faca ou a faca de fogo
Pedro já não era
mais o mesmo.
A profissão de
atirar facas tornara-se cansativa
Quinta faca ou a faca de costas
Pedro sempre
quis ser artista, aprendeu com o pai, trapezista. Ana viu Pedro e quis ser assistente
e ele a quis como esposa. Hoje estão a duas décadas neste mesmo numero.
Pedro pensa que
o publico gosta do sorriso de Ana, porque ela não tem medo.
Ana tem medo que
um dia o numero de Pedro acabe.
Aplausos
Pedro pensa que
foi mais um.
Ana pensa em
quantos ainda virão.
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