quarta-feira, outubro 10, 2012

A mulher do atirador de facas




A mulher do atirador de facas


Primeira faca

Uma moça, bela em seu colam colorido, maquiagem carregada e um coração abatido. Ele, de fortes traços latinos, trazia nas mãos um baú de madeira com uma pintura desgastada. Os dois caminhavam em silencio

Segunda faca

Pedro olha com seriedade para seu instrumento de trabalho, fecha um olho, concentra-se e atira a primeira faca em sua assistente, que agora é apenas um alvo a não ser acertado.

Ana não sabia o que o marido pensava enquanto atirava a faca, talvez não pensasse em nada, a concentração afinal deveria ser isso: não concentrar-se em nada.

Mas ele tinha coisas em mente, ao contrario do que imaginava a assistente entediada.

Pedro trazia consigo milhares de pensamentos na cabeça, talvez por isso Ana não soubesse distinguir bem o que ele pensava. Pedro pouco falava.

Terceira faca

A caixa que carregava era de uma espécie de madeira bem polida, já gasta pelo tempo e pelas andanças neste mundo afora.

Ana cuidava bem dos instrumentos do marido, o trailer em que moravam tinha uma mobília parecida com a pintura da caixa.

Ana quase nunca falava sobre o trabalho, afinal não se tinha muito que falar. Mas pensava. Pensava que em alguns anos o colam de assistente já não lhe serviria.

Quarta faca ou a faca de fogo

Pedro já não era mais o mesmo.

A profissão de atirar facas tornara-se cansativa

Quinta faca ou a faca de costas

Pedro sempre quis ser artista, aprendeu com o pai, trapezista. Ana viu Pedro e quis ser assistente e ele a quis como esposa. Hoje estão a duas décadas neste mesmo numero.

Pedro pensa que o publico gosta do sorriso de Ana, porque ela não tem medo.

Ana tem medo que um dia o numero de Pedro acabe.

Aplausos

Pedro pensa que foi mais um.

Ana pensa em quantos ainda virão.

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