quinta-feira, agosto 25, 2011

Ainda era...


Tenho me refugiado
Atrás da tela do computador
O grito vem ate a garganta
Mas dela não passa
Busco Outros
Pra me enganar
Que estou bem
Que superei

Quanto maior o tempo
O fado pesa mais em minhas costas
Já não há ar suficiente
Canso-me
Canso
Canso
Canso
Odeio tudo que foi bom
Nada me basta
Inconstante
Insatisfeita
Nada mais me faz ser eu

Infeliz
Essa é a definição
Nunca mais volto a ser eu
E a perda de mim me dói...

quinta-feira, agosto 04, 2011

Dia de faxina




Claudia observava as pessoas dentro do coletivo, o relógio central marcava sete horas em ponto.
Olhou para o celular onde três minutos se adiantavam.
Dona Antonia não admitia atrasos. Deveria estar à sua porta exatamente as sete e meia,
Uma senhora de cabelos tingidos dorme em uma das poltronas a sua frente.
Será que vou ficar assim como ela?
A mulher trás uma sacola nas mãos, sua fisionomia é cansada, todos os sábados a vejo entrar no mesmo horário, com a mesma sacola, o mesmo olhar cansado.
Dona Antonia não admite atrasos, o trânsito está um caos.
O homem do veiculo ao lado parece discutir com sua esposa. Os vidros estão fechados. É, deve ser mesmo sua esposa, afinal só se discute assim com a própria esposa. Ele dá pancadas no volante, sua cara não consigo ver, mas vejo os gestos, as mãos. Meu pai dizia que as mãos eram o começo de tudo. Ele era cego. Talvez se fosse aleijado diria que o olhar é o começo de tudo.
Eu acabo de crer que as mãos também podem ser o fim.
Dona Antonia não admite atrasos, o ônibus parecia não sair do lugar.

Cláudia dormiu, o ônibus andara alguns metros, as pessoas desciam esvaziado o coletivo e em seu sonho, no qual ela já não fala por si, via dona Antonia, com a mesma cara de todos os sábados, sentada em sua sala, discutindo com um homem, um homem?
Dona Antonia era viúva, tinha uma filha que mora na Bélgica.
Sei é que nunca vi homem algum em sua sala.
Não era homem comum, era...
Pai?
E ele enxergava, como na minha infância. De repente, uma sirene, um apito, um susto, minha parada, perdi minha parada!
E o gentil motorista não quis parar a seu pedido. Parou no próximo ponto.
Dona Antonia não admite atrasos, tenho dois minutos e uns dez metros.
Aí vem o bom dia ao porteiro
À senhora com um cachorrinho
À empregada fofoqueira da vizinha
Uma escada até o terceiro andar.

Bom dia Dona Antonia!
Não sei se você sabe,mas se tem coisa que eu não admito, é atraso. Os materiais estão na dispensa.
Meu sangue fervia na cara, num momento de extrema fúria virei pra viúva mal-amada e,
Tudo bem.
Cláudia limpava cada cômodo da mesma maneira todos os sábados. As mãos, cuidado para não quebrar nada!
Tenho medo de ter que fazer faxina toda a vida, e ficar com cara de cansada antes dos cinqüenta.
Medo de ficar viúva e não admitir atrasos
Medo de ficar cega e achar que as mãos são o começo de tudo.
Ela me pagava no fim da tarde e, enquanto refletia sobre meus medos, eu ia pra casa espremida entre um operário e outro no coletivo das seis.

quarta-feira, julho 13, 2011

that's rock'n'roll

Lembro bem. Dois anos passados,meu bem.Aquele bar, as pessoas,mas fundamentalmente nós dois.
Tudo meticulosamente arquitetado pelo acaso.Nos reconhecermos naquele 13 de julho...
As visitas constantes,o dia, mais um finamente arquitetado,do tributo aos vinte anos da mote de Raulzito.O CD da espantalho que a partir de então tornou-se pretexto. Os obstáculos que tornaram tudo graciosamente interessante... o beijo, princípio e fim d tudo.
Meus 581 dias de felicidade, e muito,muito rock.
Chegará talvez o dia em que o acaso trabalhará em nosso favor novamente...eu espero,e tu também apesar da discrepância. Dou o braço, quem quizer que torça.

ao meu Amado,

Vive le Rock!

domingo, julho 10, 2011

Time at the mall

Queria economizar o tempo do garçom.
 - Dois cafés ,por favor!
 - Sim, quero dois cafés, qual o problema?
 - Não pode duas xícaras para uma só pessoa?
 - Pode senhora. Mas me olhando com aquela cara de "és louca". Conheço essa cara desde o jardim da infância...
Paro em frente à vitrine. - A senhora deseja alguma coisa?
 - Paz no mundo. E outra vez a cara, aquela...
Ninguem tem tempo para olhar, olhar apenas.Sempre se deseja algo.
Tempo não me faltava
Parou um rapaz ao meu lado.Uma arma na mão.Iria argumentar que não tinha nada, além da cafeína e do desejo de Paz. Mas o meliante não tinha tempo .E roubou aquele que me restava.
Os traseuntes pensavam ,talvez, na cara de "és louco" do latrocida.Eles olhavam o corpo . Desejavam  não ser gente conhecida.

segunda-feira, julho 04, 2011

Pé esquerdo


Pé esquerdo

Acordou com aquela dor no pé esquerdo. Entrou na emergência e uma atendente nariguda perguntou-lhe o que sentia.
- muita dor no pé esquerdo.
A mulher deu uma verificada e fez a ficha-prontuário.

No corredor, gente doente. Criança, velho, ai que dor. Uma gorda chorosa parou ao seu lado:
- é aqui a sala de espera?
Não fosse tamanha a dor teria respondido uma indelicadeza qualquer.
Sala de preparo. Peso, altura, pressão arterial e, mais uma ficha.
Sala de triagem. Perguntas, perguntas e perguntas...

Porra! Eu to com dor no pé – pensou apenas, mas sua cara dizia bem mais que isso.
E mais uma ficha

Entrou no consultório. Dois médicos tomavam café com pão de queijo. Olharam sua ficha.
-Pois não? – o mais barrigudo perguntou como em um balcão de mercearia.
-ah doutor, não consegui dormir. To com uma dor terrível no pé esquerdo.
O médico deu a mesma verificada da atendente nariguda, olhou para a pobre cara de dor e mandou que procurasse um especialista, que só atende nas quintas-feiras.
-pegue esse encaminhamento. -assinando outra ficha.
 Mas a dor doía, e doía agora:
- o senhor nem me examinou!
- quem é o médico, eu ou você? E anda logo que tem um monte de ficha ainda pra eu atender.
Colocou os papéis junto a uma solitária nota de cinco reais dentro da mochila. Pôs o pé esquerdo no chão e voltou para casa dolorido.

domingo, janeiro 09, 2011

Varal e cordéis




Bandeiras com caras de Lennons nos quintais
Ches que varas sustentam desbotados
Lunáticos
Revolucionários
Otários de caras pintadas
Eufóricos
Loucos de tão lúcidos

Lennons com caras de vara
Revolucionários de pijamas
Roupas de banho
Roupas de cama
Em meio a marleys desfocados
Camisas
Apenas camisas
Encharcadas por  gotas caídas 
Pendurados nos armários
Em peitos bêbados
Drogados
Pulmões 
Revoluções
Camisetas

Raulzitos que mães
nas segundas lavam.