Claudia observava as pessoas dentro do coletivo, o relógio central marcava sete horas em ponto.
Olhou para o celular onde três minutos se adiantavam.
Dona Antonia não admitia atrasos. Deveria estar à sua porta exatamente as sete e meia,
Uma senhora de cabelos tingidos dorme em uma das poltronas a sua frente.
Será que vou ficar assim como ela?
A mulher trás uma sacola nas mãos, sua fisionomia é cansada, todos os sábados a vejo entrar no mesmo horário, com a mesma sacola, o mesmo olhar cansado.
Dona Antonia não admite atrasos, o trânsito está um caos.
O homem do veiculo ao lado parece discutir com sua esposa. Os vidros estão fechados. É, deve ser mesmo sua esposa, afinal só se discute assim com a própria esposa. Ele dá pancadas no volante, sua cara não consigo ver, mas vejo os gestos, as mãos. Meu pai dizia que as mãos eram o começo de tudo. Ele era cego. Talvez se fosse aleijado diria que o olhar é o começo de tudo.
Eu acabo de crer que as mãos também podem ser o fim.
Dona Antonia não admite atrasos, o ônibus parecia não sair do lugar.
Cláudia dormiu, o ônibus andara alguns metros, as pessoas desciam esvaziado o coletivo e em seu sonho, no qual ela já não fala por si, via dona Antonia, com a mesma cara de todos os sábados, sentada em sua sala, discutindo com um homem, um homem?
Dona Antonia era viúva, tinha uma filha que mora na Bélgica.
Sei é que nunca vi homem algum em sua sala.
Não era homem comum, era...
Pai?
E ele enxergava, como na minha infância. De repente, uma sirene, um apito, um susto, minha parada, perdi minha parada!
E o gentil motorista não quis parar a seu pedido. Parou no próximo ponto.
Dona Antonia não admite atrasos, tenho dois minutos e uns dez metros.
Aí vem o bom dia ao porteiro
À senhora com um cachorrinho
À empregada fofoqueira da vizinha
Uma escada até o terceiro andar.
Bom dia Dona Antonia!
Não sei se você sabe,mas se tem coisa que eu não admito, é atraso. Os materiais estão na dispensa.
Meu sangue fervia na cara, num momento de extrema fúria virei pra viúva mal-amada e,
Tudo bem.
Cláudia limpava cada cômodo da mesma maneira todos os sábados. As mãos, cuidado para não quebrar nada!
Tenho medo de ter que fazer faxina toda a vida, e ficar com cara de cansada antes dos cinqüenta.
Medo de ficar viúva e não admitir atrasos
Medo de ficar cega e achar que as mãos são o começo de tudo.
Ela me pagava no fim da tarde e, enquanto refletia sobre meus medos, eu ia pra casa espremida entre um operário e outro no coletivo das seis.
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